Quando comecei a escrever o comentário ao texto do Felipe percebi que ele estava gigante, então resolvi responder postando um texto e incorporando o comentário no meio do texto.
Eu fui uma criança leitora, minha mãe leu para mim desde que eu consigo me lembrar. Por meses a fio lia a mesma história dublando os personagem - alguns ela lembra até hoje de quais eram as vozes e as falas. Porém, eu tive muita dificuldade para aprender a escrever. Eu lia bem mas, escrever era um suplício. Por mais surpreendente que possa parecer eu fui uma criança extremamente tímida. Poucos amigos. Poucas palavras. Vergonha de abraçar. Vergonha de sorrir. Vergonha até de pedir para ir ao banheiro. Sempre achei que eu era meio burrinha, afinal, todos os meus amigos escreviam tão bem... Minha caligrafia era horrenda - sim Eunícia, isso não é de hoje - e todos os professores reclamavam. Então, quando eu cheguei na segunda série eu conheci uma professora fabulosa que marcou minha vida de forma indelével. Apesar da minha extrema timidez, da minha horrenda caligrafia, das minhas notas vergonhas, de ser a piada da turma, apesar de tudo isso ela focou-se nos meus pontos fortes, elogiou-me, e descobriu enfim que meu problema não era uma burrice sem remédio, mas ausência de óculos. Ela foi uma professora incrível. Fico me perguntando se os professores não ganhariam mais elogiando seus alunos do que criticando-os apenas. Certamente concordo que as críticas são fundamentais para que se aprenda a ser sempre melhor, porém, são os elogios que nos mostram que existem coisas que fazemos bem. Podemos melhorar evidentemente, mas não fazemos tudo errado ou ruim.
Sim Felipe pode até ter lido rápido demais, mas também tinha se empenhado em fazer uma boa leitura, merecia pelo menos uma explicação do conceito de rápido da professora. Eu entendia poucas coisas, mas não era fruto de burrice e sim de não enxergar bem o quadro e de ser um pouco mais lenta para aprender. Encontrei uma professora paciente e amorosa. Se tem uma coisa que eu me lembro é exatamente de como eu era amada por ela. O amor fica.
Acredito profundamente que o magistério é um sacerdócio. Talvez falte um pouco disso a alguns professores: devoção. Transformar a escola em altar e cada aula em oração, sendo assim parte de uma liturgia que sempre falha, que está sempre incompleta, mas que se aperfeiçoa com o tempo. Então eu gosto de pensar que na segunda série eu não encontrei apenas uma professora, eu encontrei uma sacerdotisa, que virou um dos meus mais seguros exemplos. Sinto saudades dela.
"Cada libro, cada tomo que ves tiene alma. El alma de quien lo escribió y el alma de quienes lo leyeron y vivieron y soñaron con el (...) Los libros son espejos: sólo se ven en ellos lo que uno ya lleva dentro"(Carlos Ruiz Zafón, La sombra del viento)
sábado, 4 de junho de 2011
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Rápido demais
Dia desses um professor nos devolveu as primeiras provas do semestre e fez alguns comentários sobre elas. Um deles foi referente à escrita dos alunos. Na verdade, foi uma reclamação sobre como alguns alunos - na universidade - ainda apresentam sérios problemas de escrita, principalmente concordância, coerência, coesão e pontuação.
Deixando isto de lado, escrevo porque esta crítica do professor me fez lembrar dos meus primeiros dias de leitura. Considero que tive certa facilidade no aprendizado de leitura e escrita, embora fosse muito novo e tenha poucas lembranças. Gosto de dizer que aprendi a ler em uma escola municipal - tão abandonadas e desacreditadas - onde fiz a Classe de Alfabetização (o antigo CA), no ano de 1994. Lembro do Fusca "Café com leite" do meu avô à porta da escola, na hora da saída. Eu gostava de ler, embora, quando criança, sempre achasse que houvesse outras coisas mais interessantes para fazer. Não fui uma criança leitora. Meus pais nunca leram para mim na hora de dormir. Morávamos em um bairro longínquo na zona oeste da cidade e a livraria mais próxima ficava a algumas horas de ônibus ou de carro dali. A primeira vez que vi uma livraria foi depois que nos mudamos para a zona sul, em 2003. O interesse por leitura só cresceu mesmo no final da adolescência e com a universidade.
Mas, voltando à leitura na infância, o que realmente estava lembrando e queria escrever aqui, foi quando na 1ª ou 2ª séries (hoje 2º ou 3º anos, se não me engano), a professora separou um dia no qual chamava cada aluno à sua mesa para que lessem em voz alta para ela. Certamente uma forma de avaliar a capacidade de compreensão e o desenvolvimento da leitura de seus alunos. Quando chegou minha vez, fui todo confiante. Eu achava que lia bem. Queria impressionar a professora. Não lembro mais o que li, mas li. Terminei triunfante. O comentário dela? "Você está lendo rápido demais." Só. Frustrante. O que aquilo queria dizer? Eu não sabia. Eu não entendi e não perguntei a ela, é claro. Vocês me conhecem. Voltei, meio decepcionado, confesso, para o meu lugar. Hoje acredito que o significado do "Você está lendo rápido demais" fosse "Você lê sem atentar para a pontuação." Apenas um pouco mal explicado, não?
Há pouco tempo contei esta história para minha mãe, professora que sempre trabalhou com alfabetização. Ela soltou uma gargalhada e ficamos tentando entender o que "ler rápido demais" significa. Chegamos à conclusão acima. É um acontecimento que acho divertido da minha infância e da minha história com a leitura. A crítica feita à turma pelo professor da universidade me fez lembrar disso. Quis compartilhar. :D
domingo, 29 de maio de 2011
Dedicatória...
"Kaleba.
Que nunca te esqueças de ti
que nunca te esqueças de nós
alçando o vôo da liberdade
infinita num cântico sagrado
cântico tenor
cântico-amor
Feliz Natal,
André Araújo"
Enquanto eu estudo, leio poesia. Estava na biblioteca da PUC recentemente quando pedi ao armazém um dos livros de Cecília Meireles, "Cânticos". Deparei-me com esta bela dedicatória. O livro marcado pelo tempo, manchado e manuseado. Tentei pesquisar quem seriam os dois personagens, Kaleba e André Araújo. Na ausência de resposta, tentei imaginar. Então deixei-os em paz. Mas sigo encantada pela dedicatória que diz tanto em meio as manchas do tempo que marcam o livro editado na década de 1980. De fato como diz Mia Couto, as palavras - ainda que nossas - não moram em nós. As de André o pertenceram, mas agora, são um pouco minhas também. Seguem dizendo a tantos outros, ainda que o destino primeiro tenha sido Kaleba.
Enfim, embaralhando André, Mia e Cecília sorri:
"acima de nós, em redor de nós
as palavras voam
E às vezes pousam"
(Cecília Meireles)
As de André pousaram em mim...
Que nunca te esqueças de ti
que nunca te esqueças de nós
alçando o vôo da liberdade
infinita num cântico sagrado
cântico tenor
cântico-amor
Feliz Natal,
André Araújo"
Enquanto eu estudo, leio poesia. Estava na biblioteca da PUC recentemente quando pedi ao armazém um dos livros de Cecília Meireles, "Cânticos". Deparei-me com esta bela dedicatória. O livro marcado pelo tempo, manchado e manuseado. Tentei pesquisar quem seriam os dois personagens, Kaleba e André Araújo. Na ausência de resposta, tentei imaginar. Então deixei-os em paz. Mas sigo encantada pela dedicatória que diz tanto em meio as manchas do tempo que marcam o livro editado na década de 1980. De fato como diz Mia Couto, as palavras - ainda que nossas - não moram em nós. As de André o pertenceram, mas agora, são um pouco minhas também. Seguem dizendo a tantos outros, ainda que o destino primeiro tenha sido Kaleba.
Enfim, embaralhando André, Mia e Cecília sorri:
"acima de nós, em redor de nós
as palavras voam
E às vezes pousam"
(Cecília Meireles)
As de André pousaram em mim...
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Lendo Cecília Meireles
Noções
Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.
Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.
Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.
Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...
Cecília Meireles
Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.
Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.
Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.
Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...
Cecília Meireles
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Muitas formas de dizer
"A mãe da minha da mãe falava com os olhos e acho que por isso o carinho ficou sendo azul pra sempre.
A mãe do meu pai falava num dialeto que eu não conseguia entender e acho que por isso aprendi a ler sorrisos.
As palavras se dizem de muitos jeitos."
As palavras se dizem de muitos jeitos."
(Silvana Tavano)
domingo, 15 de maio de 2011
Para quem gosta de livros
Li hoje no Blogão de Alexandre, autor de livro infantil e pai de amigo de minha filha: há nas bancas e online uma revista de boa qualidade dedicada à Literatura. Chama-se CONHECIMENTO PRÁTICO REVISTA LITERATURA. Nos links vão acessar respectivamente o blog do Alex Gomes e a revista. Divirtam-se nos dois.
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