"Cada libro, cada tomo que ves tiene alma. El alma de quien lo escribió y el alma de quienes lo leyeron y vivieron y soñaron con el (...) Los libros son espejos: sólo se ven en ellos lo que uno ya lleva dentro"

(Carlos Ruiz Zafón, La sombra del viento)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Os 10 livros

Os livros, as idéias e as pessoas

Hoje trouxe para casa 10 livros de uma só vez. Gasto vultoso na livraria, possível apenas pelo dinheiro de um projeto. Enquanto assinava e datava cada um (sempre coloco o ano da aquisição), pensava no que seria deles quando eu já não existisse mais. Meus filhos seguem rumos profissionais bem distintos dos meus e ainda não cheguei ao tempo de ser avó e adivinhar futuros outros que poderiam transformar-se e transformar através deles...

Lembrei do Ilmar e da Guida e da iniciativa da Casa... Mas para além da dimensão prática, fui sequestrada por outras imagens e percepções... Como se as palavras ganhassem corpo e voassem, como se o que dos livros fisicamente existe nada fosse além daquilo que passa a habitar nossos corações e mentes. Meus livros são para mim, são viagens sem fim. Mas meus livros são também para meus alunos e amigos, aqueles que, ao ouvirem as palavras faladas, recuperam e re-inventam aquelas anteriores palavras impressas.

Fiquei tranquila. Os livros estão aqui, mas também ali e em qualquer outro lugar. As chamas ou o tempo podem fisicamente destruí-los, mas eles continuarão vivos.

Hora de dormir. Hora de dormir?


Imaginative photographer Yusuke Suzuki  has created a page turner of a bed  that looks like an oversized book. At night it is opened up for sleepy heads to sleep in and during the day it is shut closed to create enough space for children to play in their room.

terça-feira, 1 de março de 2011

Estantes


***
"Acho a criatura humana muito mais interessante no período infantil do que depois de idiotamente tornar-se adulta. (...) Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar" 
(Monteiro Lobato)



Maria Eduarda me visita com frequência. Ela é curiosa como algumas meninas de 6 anos são, nascidas para a eterna novidade do mundo de que Pessoa fala. Duda vem e vai. Poucas vezes assiste um filme inteiro, ela perde a paciência, raramente brinca por mais de uma hora da mesma coisa, a trama e os brinquedos mudam com rapidez, mas ouve incansável diversas vezes a mesma história do mesmo livro que está na minha estante e que ela tanto ama. Toda vez que ela dorme na minha casa senta-se na minha cama e espera que eu lhe conte suas duas histórias favoritas: "Marcelo, marmelo, martelo" e "A Menina que não era maluquinha II", ambos escritos por Ruth Rocha, e só ouve alguma história nova se eu prometer que lerei estes dois no final. No primeiro ela gosta especialmente da entonação da minha voz quando eu leio o trecho em que Marcelo quer saber porque ele não se chama martelo ou marmelo , no segundo acha divertidíssima a forma como a menina que não era maluquinha fala com sua professora sobre o Brasil e os índios. Já li cinco vezes a mesma história e tantas vezes ela me pede para repetir os mesmos trechos. Me divirto tanto quanto ela certamente. Recentemente, quando estava arrumando o quarto, Duda tirou os livros do armários e cismou que os queria na prateleira do seu quarto, quando sua mãe perguntou o motivo ela disse: "Quero ter uma estante que nem a da Agnes". Quando a mãe dela me contou eu sorri por dentro e por fora, lembrei de que quando eu era criança era eu quem dizia: "quero ter uma estante como a do meu avô". Gosto de pensar que a Duda está descobrindo como é bom viver morando nos livros. :)  

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Melancolia

Existe uma melancolia deliciosa em terminar um livro, no meu caso encerrei uma trilogia maravilhosa quando terminei de ler o último livro da Trilogia Mundo de Tinta escrito por Cornelia Funke.
Terminei a aventura no início de Janeiro, mas procrastinei a escrita na tentativa de guardar em mim um pouco mais das palavras e das belezas do livro antes de compartilhar. Admito, é uma atitude um pouco egoísta, porém, sempre em tempo, escreverei algumas breves linhas sobre o livro agora.
Morte de Tinta surpreende. Primeiro por sua densidade e complexidade apesar de ser catalogado como livro infanto-juvenil, depois pelas escolhas estilísticas da autora, pela criatividade e sensibilidade que uma história de fantasia necessita e que são especialmente exploradas neste último volume da série, e enfim, pelo sentimento de continuidade que a obra deixa em seu leitor. A trilogia como um todo é fantástica, a autora dá pequenos mergulhos nas almas dos personagens, permitindo-nos ter um vislumbre da complexidade que cada um deles carrega. Não conhecemos inteiramente cada um deles, eles nos surpreendem, mesmo em um livro final onde as ações poderiam já ser previsíveis. Personagens antes odiados se tornam apaixonantes - e outros que eu amava passei a odiar -, Cornelia Funke conseguiu reter nas letras a ambiguidade que vivenciamos no mundo, conseguiu traduzir as decepções de corações jovens e a beleza de amores antigos.
O livro é fantástico, fecha de forma brilhante a aventura do primeiro e deixa-me como um gostinho de quero mais na boca.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Presente de Natal: para ler deitada no chão

 A compra do presente de natal foi uma odisséia. Primeiro a dificuldade em encontrar o presente, depois, para conseguir trocar o produto defeituoso. Apesar das complicações para troca - que não quero comentar para não me irritar novamente - finalmente consegui localizar com a Saraiva uma filial onde poderia trocar o presente.
Cheguei em casa com o peso enorme da edição especial, contendo em três enormes volumes todas as aventuras de Calvin e Haroldo, ou Hobbes no original em inglês.


 Os livros são grandes e pesados por isso o melhor lugar para ler é certamente o chão. Debruçada sobre as páginas. Essa é uma típica leitura das tardes nas férias... para relaxar e rir quando Dostoiévski - leitura oficial das férias - se tornar pesado demais.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Descoberta Recente

Recebi de presente em amigo oculto recente o Caderno de Sonetos de Tite de Lemos. Não conhecia o poeta ou a beleza de seus escritos. Compartilho com outros da mesma forma que compartilharam comigo.

I

A sombra o longo pátio visitava
e a sombra me assombrava. Ainda assombra
Porque brilhava o sol havia sombra
como um senhor carrega sua escrava


Não sei se sonho agora ou se sonhava:
na paisagem que vejo ainda há sombra
e a sombra que lá baila, ao léu, me assombra
a alma covarde num papel de brava


As maçãs me fugiram pelos dedos
com as águas de rápidos regatos
que passaram mais eu não vi passar


A tarde vem tecer velhos enredos.
Costura e recostura antigos fatos
como se a vida fosse algum tear. 

domingo, 19 de dezembro de 2010

Encontro na Livraria

Moro em uma casa cheia de leitores, portanto, sair e ir à livraria é sempre uma festa. Hoje fomos celebrar a vida - como em geral fazemos - e comprar o meu presente de natal, na livraria. Enquanto procurava presentes para outras pessoas encontrei com uma professora da faculdade, a mesma que indicou-me a leitura do Mia Couto. Em poucos minutos paradas em frente a mesma estante ela me indicou três autores diferentes e ofereceu algumas dicas interessantes para presentes, algumas eu me darei de presente e outras darei aos meus amigos que faltam se presenteados.
Quando saí da livraria fiquei pensando sobre como pode ser divertido encontrar nas livrarias alguém que lê bastante coisas completamente diferentes daquilo que você lê. Essa mistura de leituras é algo tão delicioso e é o que torna esse blog tão querido. Esta é a segunda virada de ano do Leitores Amigos e o encontro com minha professora me lembrou dos nossos encontros e misturas virtuais de leituras diversas e multifacetadas de muitos autores e também da própria vida.
Que venham novos encontros e reencontros...

sábado, 18 de dezembro de 2010

Le Petit Nicolas: uma nova alfabetização


Eu me lembro ainda da descoberta que vivi quando aprendi a ler pela primeira vez. E agora, aprendendo a ler pela terceira vez, a descoberta continua sendo deliciosa. Como parte das atividades e projetos do semestre minha turma e eu lemos o primeiro livro da parceria de Sempé e Goscinny, Le Petit Nicolas. O livro que foi recentemente adaptado para as telas do cinema é simplesmete maravilhoso. Gargalhei diversas vezes ao ler o livro, o primeiro que li em francês. Assisti o filme no cinema e devo admitir que não sei como não me engasguei com toda aquela pipoca enquanto chorava de rir assistindo o filme. Lembrei-me muito de mim mesma e da minha infância lendo o livro e vendo o filme, pois eu era - como o pequeno Nicolas - muito levada e sapeca, sempre acabava dentro das maiores confusões e aventuras na companhia dos meus melhores amigos. 
Ouvir e compreender o francês oral é certamente fantástico, porém, ser capaz de ler um livro é simplesmente magnífico. O melhor é me surpreender de novo, passar pelo espanto inicial do qual Pessoa fala, como se estivesse sendo alfabetizada pela primeira vez. :)
Para os que não leram o livro aviso que grande parte das histórias já foi traduzida para o português. Além disso, se houver oportunidade, assistam o filme, livro e filme são maravilhosos!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Acender-se


Imagem por Will Washford


"Eis que aprendi
Nesses vales onde afundam os poentes:

Afinal, tudo são luzes
E a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo,
Nós somos suas breves incandescências."

Mia Couto. 
"Um rio chamado tempo, uma casa chamada Terra"


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Alguns livros continuam falando com a gente mesmo depois de muito tempo...

sábado, 11 de dezembro de 2010

'Com as palavras lavamos nossas vidas'

Imagem por Will Washford

“Em carta de 1948, Graciliano Ramos compara o trabalho do escrito à rotina das lavadeiras. Fala das velhas lavadeiras alagoanas quem inclinadas sobre a água, em um ritual hipnótico, dão uma primeira lavada em suas roupas, torcem-nas, molham novamente, voltam a torcer, em um teatro sem fim. Só depois, elas mergulham a roupa no anil e, enfim, a ensaboam. Mas tudo recomeça. Diz Graciliano: “Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota”. Da repetição interminável, arrancam a existência.
             As palavras de Graciliano me chegam em outra carta, despachada do Recife pelo escritor Fernando Monteiro. Eu uso, agora, como um marcador de páginas enquanto leio “O senhor vai entender” (Companhia das Letras, tradução de Maurício Santana Dias), novela do italiano Claudio Magris. A carta de meu amigo contém outra idéia de Graciliano; “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”. Embaralhando os dois pensamentos, arrisco-me a pensar: com as palavras, lavamos nossas vidas."
(José Castello. “Magris no elevador” (Fragmento). Caderno prosa e verso. O Globo.)

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Enquanto escrevo o artigo de cada semestre lembrei-me deste fragmento que me foi apresentado pelo professor Ilmar Mattos em aula, foi uma das epígrafes do curso de LEAH (Laboratório de Ensino e Aprendizagem em História). Compartilho com os leitores amigos então, não apenas pela beleza que o fragmento contém, mas também pela angústia que me passa graças aos diversos momentos em que meu esmero com a escrita deixa muito a desejar. 

"I wait on every word"


Tirei o lindo desenho daqui

domingo, 28 de novembro de 2010

Em meio aos livros


Tirei a imagem daqui, foi uma indicação da leitora amiga Eunícia.

É uma delícia deitar-se imerso em livros, não?


sábado, 20 de novembro de 2010

Descobrindo palavras

Eu estava preparando uma postagem diferente, mas a imobilização da mão direita me forçou a parar no meio.
Em pleno sábado de manhã estava a passear pela internet quando lembrei que uma amiga comentou sobre o blog da editora Bruaá. Fui até lá investigar e encontrei este belo poema.
Quem quiser conhecer todo o blog clique aqui
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A Cidade


A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

Ary dos Santos

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Lançamento


Chegou ao Brasil o livro em que Ingrid Bittencourt conta sobre o tempo em que viveu como refém da Farc. O livro que se chama "Não há silêncio que não termine" foi lançado pela companhia das letras e a autora foi entrevistada pelo Globo.com enquanto está na Brasil para promover o livro. Extraí um trecho que me falou bastante. Leia a entrevista na íntegra aqui
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"Lembro quando estava presa em uma árvore – e foi um momento muito preciso porque lembro que estava chovendo – e havia pedido ao comandante que me deixasse ficar na barraca com meus companheiros, e ele não me autorizou. Eu tinha pedido que me soltasse para ir ao banheiro e ele me olhou feio e disse: ‘faça aí, na minha frente ‘. Nesse momento eu pensei ‘perdi tudo’, meus filhos, minha vida, minha mãe. Meu pai que estava morto parecia estar mais perto de mim do que todos os demais.
[...] Mas depois pensei ‘não, não tinha perdido tudo’. Havia algo que eu não tinha perdido, e era a decisão que podia tomar de dizer que tipo de pessoa eu quero ser. E eu não quero ser como eles. Não quero ser uma pessoa que mata outro para obter a liberdade, não quero ser alguém que odeia, não quero ser uma pessoa que saia da selva, se um dia sair, com rancor, sede de vingança. Pensei: eu posso definir isso.
E hoje em dia, quando tenho a liberdade de tudo, sigo sentindo que o mais importante é isso. E essa liberdade de definir quem se quer ser é uma liberdade que não se dá nas grandes decisões da vida, mas nos pequenos detalhes, em cada momento. Na maneira como uma pessoa dispõe de seu tempo. Porque acredito que o maior presente que uma pessoa pode dar a outra é seu tempo. Então é no amor que se coloca nas relações com os demais, no trato com os demais. Enfim, não acho que uma pessoa seja capaz de mudar o mundo, mas é possível mudar o próprio mundo, o seu interior, e quando mudamos o nosso interior, estamos mudando o mundo."

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Maggs Rare books


Há quem diga que a visita em si já vale tudo. Eu não sei, não pude esticar até lá quando estive em Londres. Não faltou vontade. Maggs Rare Books é mais do que um sebo, é um antiquário cheio de preciosidades autografadas e raras. Essa foto é de uma série de fotografias tiradas lá. Inclusive conheci a Maggs através desta série de fotos que foi apresentada pelos amigos da Pó dos livros
Para conhecer melhor o lugar entre no site da Maggs Bros

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Persépolis

Neste mundo de HQs existem outros títulos de que gosto especialmente além de MAUS, do qual falei no último post. Marjane Satrapi é uma iraniana que fez sua autobiografia em formato de HQs. O livro que foi divido em quatro volumes e depois transformado em um só, fala desde sua infância e adolescência até sua vida adulta. Através de sua biografia, Satrapi aborda a história do Irã e mostra como foi fortemente influenciada pelo contexto político que viveu em seu país. Durante sua estadia na europa a questão das identidades se tornam um tema recorrente, como se identificar, se os iranianos são acusados constantemente de serem terroristas?
O tema da mulher entra em cena conforme a personagem, a própria autora, cresce. Que tipo de mulher ser, a iraniana ou a européia? Cabe a ela esta escolha?
Existem os preconceitos diversos que ela acaba sofrendo e que ela também demonstra em outros momentos. O choque entre sua cultura e a cultura européia.
O livro é complexo, afinal a vida está imersa em complexidades e complicações. As relações familiares estão cheias de tensão, o amor é um espaço de muitos conflitos. A avó que é uma mulher especialmente forte - de quem Marjane gosta especialmente e por quem nutre enorme admiração, os pais que são incrivelmente amorosos -inclusive a autora faz uma nota especial agradecendo a compreensão e o amor dos pais, e existe esse outro personagem, um governo que tantas vezes seca os amores ou pelo menos dificulta-os. Além disso, existe a inevitável e bem-vinda mudança, que ora nos aproxima, ora nos afasta daqueles que tanto amamos e que também  nos amam.

No meio disso tudo estoura uma guerra, alguns amigos se perdem, outros saem do conflito com sequelas permanentes e como a própria autora escreve, o tempo se encarrega de aproximá-la de seus antigos amigos e depois de separá-la. Todos esses temas acabam sendo abarcados pela biografia desenhada de Marjane Satrapi. O tom do livro ainda que por vezes seja dramático e duro, não desperdiça os momentos de bom humor e alegria, nem perde as oportunidades que lhe são concedidas para o riso, acredito que em alguns momento a vida funciona da mesma forma.