"Cada libro, cada tomo que ves tiene alma. El alma de quien lo escribió y el alma de quienes lo leyeron y vivieron y soñaron con el (...) Los libros son espejos: sólo se ven en ellos lo que uno ya lleva dentro"

(Carlos Ruiz Zafón, La sombra del viento)

sábado, 20 de novembro de 2010

Descobrindo palavras

Eu estava preparando uma postagem diferente, mas a imobilização da mão direita me forçou a parar no meio.
Em pleno sábado de manhã estava a passear pela internet quando lembrei que uma amiga comentou sobre o blog da editora Bruaá. Fui até lá investigar e encontrei este belo poema.
Quem quiser conhecer todo o blog clique aqui
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A Cidade


A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

Ary dos Santos

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Lançamento


Chegou ao Brasil o livro em que Ingrid Bittencourt conta sobre o tempo em que viveu como refém da Farc. O livro que se chama "Não há silêncio que não termine" foi lançado pela companhia das letras e a autora foi entrevistada pelo Globo.com enquanto está na Brasil para promover o livro. Extraí um trecho que me falou bastante. Leia a entrevista na íntegra aqui
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"Lembro quando estava presa em uma árvore – e foi um momento muito preciso porque lembro que estava chovendo – e havia pedido ao comandante que me deixasse ficar na barraca com meus companheiros, e ele não me autorizou. Eu tinha pedido que me soltasse para ir ao banheiro e ele me olhou feio e disse: ‘faça aí, na minha frente ‘. Nesse momento eu pensei ‘perdi tudo’, meus filhos, minha vida, minha mãe. Meu pai que estava morto parecia estar mais perto de mim do que todos os demais.
[...] Mas depois pensei ‘não, não tinha perdido tudo’. Havia algo que eu não tinha perdido, e era a decisão que podia tomar de dizer que tipo de pessoa eu quero ser. E eu não quero ser como eles. Não quero ser uma pessoa que mata outro para obter a liberdade, não quero ser alguém que odeia, não quero ser uma pessoa que saia da selva, se um dia sair, com rancor, sede de vingança. Pensei: eu posso definir isso.
E hoje em dia, quando tenho a liberdade de tudo, sigo sentindo que o mais importante é isso. E essa liberdade de definir quem se quer ser é uma liberdade que não se dá nas grandes decisões da vida, mas nos pequenos detalhes, em cada momento. Na maneira como uma pessoa dispõe de seu tempo. Porque acredito que o maior presente que uma pessoa pode dar a outra é seu tempo. Então é no amor que se coloca nas relações com os demais, no trato com os demais. Enfim, não acho que uma pessoa seja capaz de mudar o mundo, mas é possível mudar o próprio mundo, o seu interior, e quando mudamos o nosso interior, estamos mudando o mundo."

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Maggs Rare books


Há quem diga que a visita em si já vale tudo. Eu não sei, não pude esticar até lá quando estive em Londres. Não faltou vontade. Maggs Rare Books é mais do que um sebo, é um antiquário cheio de preciosidades autografadas e raras. Essa foto é de uma série de fotografias tiradas lá. Inclusive conheci a Maggs através desta série de fotos que foi apresentada pelos amigos da Pó dos livros
Para conhecer melhor o lugar entre no site da Maggs Bros

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Persépolis

Neste mundo de HQs existem outros títulos de que gosto especialmente além de MAUS, do qual falei no último post. Marjane Satrapi é uma iraniana que fez sua autobiografia em formato de HQs. O livro que foi divido em quatro volumes e depois transformado em um só, fala desde sua infância e adolescência até sua vida adulta. Através de sua biografia, Satrapi aborda a história do Irã e mostra como foi fortemente influenciada pelo contexto político que viveu em seu país. Durante sua estadia na europa a questão das identidades se tornam um tema recorrente, como se identificar, se os iranianos são acusados constantemente de serem terroristas?
O tema da mulher entra em cena conforme a personagem, a própria autora, cresce. Que tipo de mulher ser, a iraniana ou a européia? Cabe a ela esta escolha?
Existem os preconceitos diversos que ela acaba sofrendo e que ela também demonstra em outros momentos. O choque entre sua cultura e a cultura européia.
O livro é complexo, afinal a vida está imersa em complexidades e complicações. As relações familiares estão cheias de tensão, o amor é um espaço de muitos conflitos. A avó que é uma mulher especialmente forte - de quem Marjane gosta especialmente e por quem nutre enorme admiração, os pais que são incrivelmente amorosos -inclusive a autora faz uma nota especial agradecendo a compreensão e o amor dos pais, e existe esse outro personagem, um governo que tantas vezes seca os amores ou pelo menos dificulta-os. Além disso, existe a inevitável e bem-vinda mudança, que ora nos aproxima, ora nos afasta daqueles que tanto amamos e que também  nos amam.

No meio disso tudo estoura uma guerra, alguns amigos se perdem, outros saem do conflito com sequelas permanentes e como a própria autora escreve, o tempo se encarrega de aproximá-la de seus antigos amigos e depois de separá-la. Todos esses temas acabam sendo abarcados pela biografia desenhada de Marjane Satrapi. O tom do livro ainda que por vezes seja dramático e duro, não desperdiça os momentos de bom humor e alegria, nem perde as oportunidades que lhe são concedidas para o riso, acredito que em alguns momento a vida funciona da mesma forma.

domingo, 24 de outubro de 2010

MAUS


"A exigência de que Auschwitz não se repita
é a primeira de todas para a educação (...)
Ela foi a barbárie contra a qual se dirige
toda a educação."
(Theodor Adorno, Educação após Auschwitz)


Eu sempre gostei de HQs. É de família, aprendi com meu pai. Mesmo assim, pensei durante muito tempo que quadrinhos era algo que servia-me apenas como divertimento. Quando cheguei ao segundo ano do ensino médio conheci um professor de história que acreditava - e ainda acredita - que nós aprendemos mais e melhor quando nos divertimos. Então, no momento de estudarmos a Segunda Guerra Mundial ele sugeriu um trabalho a partir da leitura de MAUS, uma história em quadrinhos sobre o holocausto. Art Spiegelman é o único autor de histórias em quadrinhos que foi premiado com o Pulitzer. Seu livro MAUS é o único livro de histórias em quadrinhos que recebeu esse prêmio. Em sua obra ele conta a história de seu pai Vladek e sua mãe Anja, ambos sobreviventes do holocausto. A história é contada segundo a visão do pai, mas Art - ou Artie, como é chamado pelo pai - aparece em muitos momentos que retratam as várias visitas e entrevistas que ele fez com seu pai para desenhar o livro. MAUS é uma história do tipo FORTE - em letras garrafais. Não estamos falando de história em quadrinhos que visa apenas entreter. Chorei lendo na primeira vez, e na segunda, na terceira...
Spiegelman desenhou os judeus como ratos, os alemães são gatos, os polonesês são retratados como porcos - certamente encontramos o elemento risível nas representações - e os americanos são cães. No entanto, vale ressaltar, estamos falando de ratos incrivelmente humanos. Acredito que a representação escolhida permite ao autor criticar, mas, surpreendente, torna o livro ainda mais forte. Emociona-me toda vez que leio. Meu professor tinha razão, a questão do holocausto ficou gravada em mim de tal forma que nenhuma aula - por melhor e mais completa que fosse -  jamais poderia alcançar tamanho sucesso. MAUS é um belo livro, um testemunho comovente certamente, mas é também um manifesto contra a barbárie, contra o horror vivido por tantos homens e mulheres que, durante um triste período da história da humanidade, foram reduzidos à condição de ratos.

sábado, 23 de outubro de 2010

Sobre fracassos

Na semana do dia das crianças eu dei uma passada no blog da Companhia das Letras e por um acaso eles tinham uma lista de livros interessantes para crianças e jovens. Li muitos elogios ao trabalho de Jules Feiffer, e a capa do livro foi escrita por Art Spiegelman, autor e desenhista que eu particularmente admiro muito. O livro O Homem no Teto escrito e ilustrado por Jules Feiffer é ainda melhor do que eu esperava. Jimmy, o protagonista da história, tem uns dez anos e meio, não fala muito, não tem tantos amigos assim, não joga beisebol e não se esforça muito na escola. Tem uma irmã que grita com ele o tempo todo e outra que quer sempre sua atenção. Jimmy é um desenhista de história em quadrinhos que conhece muito bem o significado da palavra fracasso. Jimmy não é o popular super-herói dono de seu próprio nariz, ele é um menino inseguro que muitas vezes desiste de seus sonhos para tentar ganhar a afeição e admiração dos outros. Este não é um livro com uma história extraordinária cheia de coisas grandiosas e distantes da realidade. É uma história para os jovens Jimmys que existem aos montes. Livro para meninas como eu, que era uma dessas pessoas sem muitos amigos mas repleta de fracassos. Emocionei-me com o livro, isso significa que ri bastante - afinal é um livro cheio de bom humor - mas também chorei um pouquinho quando percebi como éramos parecidos, eu e Jimmy. Fizemos uma boa descoberta, fracassar não é nossa deixa para desistir, mas para continuar. "É preciso caminhar antes de correr".  O livro conta o cotidiano de um menino que luta pelo sucesso e ao fim descobrimos, eu e ele - ambos com lágrimas nos olhos -, que passamos pelo fracasso muitas vezes antes de descobrir o sucesso. E então nos sentimos em casa, continuaremos caminhando...