
"Este livro não pretende ser um libelo e nem uma confissão, e menos ainda uma aventura, pois a morte não é uma aventura para aqueles que se deram face a face com ela. Apenas procura mostrar o que foi uma geração de homens que, mesmo tendo escapado às granadas, foram destruídos pela guerra."
(Erich Maria Remarque. Nada de novo no front. Porto Alegre: L&PM, 2010.)
Ao terminar de ler este livro, não sei exatamente o que escrever aqui...
É o tipo de leitura que tem o poder de nos deixar pensativos por longo tempo. Se tenho que descrever o livro em poucas palavras, fico com as do autor do pequeno resumo que acompanha a edição: "assustadoramente comovedor".
Erich Maria Remarque, o autor, combateu nas trincheiras alemães da Primeira Guerra Mundial. Foi ferido três vezes, uma delas gravemente. Na década seguinte tomou notas dos horrores que viveu na frente de batalha, formando o núcleo deste seu livro. Nada de novo no front (Im Western Nichts Neues) foi publicado em 1929, sendo considerado até hoje um dos mais importantes romances pacifistas do século XX. É de impressionar como a experiência vivida pelo autor flui das páginas. Sua impressionante e assustadora descrição do front ocidental e o poder psicológico que exercia naqueles soldados, rapazes de 18 anos que para lá eram enviados para combater, tornam o texto violentamente vivo; as violências da guerra, a descrição de corpos mutilados e a crescente indiferença em relação a tudo isto, os sofrimentos, os momentos de descanço da tropa, as diversas maneiras de adaptação e o cotidiano daqueles jovens soldados são apresentados pelo autor de forma viva e diferente de se ver a guerra. Remarque também traz profundas reflexões e apresenta suas pesadas críticas ao narrar os crescentes questionamentos de seus personagens, a maioria soldados, em relação ao conflito e aos motivos que levam o homem a fazer a guerra. Acho que, destas críticas, a que mais me sinto tentado a registrar aqui é a que diz respeito à influência dos professores.
Comovidos pelos discursos inflamados e ideais nacionalistas de um de seus professores, o protagonista Paul Bäumer e sua turma dirigem-se ao destacamento do bairro e se alistam. Ao ver do que se trata realmente uma guerra, Bäumer nos deixa o seguinte testemunho:
"Os professores deveriam ter sido para nós os intermediários, os guias para o mundo da maturidade, para o mundo do trabalho, do dever, da cultura e do progresso e para o futuro. Às vezes, zombávamos deles e lhes pregávamos peças, mas, no fundo, acreditávamos neles. A idéia de autoridade da qual eram os portadores, juntou-se em nossos pensamentos uma melhor compreensão e uma sabedoria mais humana. Mas o primeiro morto que vimos destruiu esta convicção. Tivemos que reconhecer que a nossa geração era mais honesta do que a deles; só nos venciam no palavrório e na habilidade. O primeiro bombardeio nos mostrou nosso erro, e debaixo dele ruiu toda a concepção do mundo que nos tinham ensinado.
Enquanto eles continuavam a escrever e a falar, víamos os hospitais e os moribundos; enquanto proclamavam que servir ao Estado era o mais importante, já sabíamos que o pavor de morrer é mais forte. Nem por isto nos amotinamos, nem nos tornamos desertores, nem mesmo covardes - todas estas expressões vinham-lhes com muita facilidade. Amávamos nossa pátria tanto quanto eles e avançávamos corajosamente em cada ataque; mas, agora, já sabíamos distinguir, aprendemos repentinamente a ver; e, do mundo que haviam arquitetado, víamos que nada sobrevivera. De súbito, ficamos terrivelmente sós - e, sós, tínhamos de nos livrar de toda esta embrulhada."