"Cada libro, cada tomo que ves tiene alma. El alma de quien lo escribió y el alma de quienes lo leyeron y vivieron y soñaron con el (...) Los libros son espejos: sólo se ven en ellos lo que uno ya lleva dentro"

(Carlos Ruiz Zafón, La sombra del viento)

terça-feira, 4 de maio de 2010

Ivan Angelo - Ladrão de Sonhos

Andando pela internet encontrei um texto de que gosto muito desde que o conheci no terceiro ano. Ivan Ângelo no livro Ladrão de Sonhos e outras histórias. Para os leitores notívagos, ei-lo:
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VAI

Quer ir? Vai. Eu não vou segurar. Uma coisa que não dá certo é segurar uma pessoa contra a vontade, apelar pro lado emocional. De um jeito ou de outro isso vira contra a gente mais tarde: não fui porque você não deixou, ou: não fui porque você chorou. Sabe, existem umas harmonias em que é bom a gente não mexer. Estraga a música. Tem a hora dos violinos e tem a hora dos tambores.
Eu compreendo, compreendo perfeitamente. Olha, e até admito: você muda pra melhor. Fora de brincadeira, acho mesmo. Eu sei das minhas limitações, pensei muito nisso quando tava tentando te entender. É, é um defeito meu, considerar as pessoas em primeiro lugar. Concordo. Mas não tem mais jeito, eu sou assim. Paciência.
Sabe por que eu digo que você muda pra melhor? Ele faz tanta coisa melhor do que eu! Verdade. Tanta coisa que eu não aprendi por falta de tempo, de oportunidade – ora, pra que ficar me justificando? Não aprendi por falta de jeito, de talento, essa é que é a verdade. Eu sei ver as qualidades de uma pessoa, mesmo quando é um homem que vai roubar minha namorada. Roubar não: ganhar.
Compara. Ele dança muito bem, até chama a atenção. Campeão de natação, anda de bicicleta como um acrobata de circo, é bom de moto, sabe atirar, é fera no volante, caça e acha, monta a cavalo, mete o braço, pesca, veleja, mergulha... Não tem companhia melhor.
Eu danço mal, você sabe. Não consegui ultrapassar aquela fronteira larga entre a timidez e a ousadia, entre a discrição e o exibicionismo, que separa o mau e o bom bailarinos. Nunca fui muito além daquela fase em que uma amiga compadecida precisava sussurrar no meu ouvido:dois pra lá, dois pra cá.
Atravessar uma piscina eu atravesso, uma vez, duas talvez, mas três? Menino de cidade, e modesto, não tive córrego nem piscina. É com olhos invejosos que eu o vejo na água, afiado como se tivesse escamas.
Moto? Meu Deus, quem sou eu. Pra ser bom nisso é preciso ter aquele ar de quem vai passar roncando na frente ou por cima de todo mundo – e esse ar ele tem.
Montar? É preciso ter essa certeza, que ele tem, de que cavalo foi feito pra ser domado, arreado, freado, ferrado e montado. Eu não tenho. Não tá em mim. Eu ia montar como se pedisse desculpas ao cavalo pelo incômodo, e isso não dá, não pode dar um bom cavaleiro.
O jeito como ele dirige um carro é humilhante. Já viajei com ele, encolhido e maravilhado. Você conhece o jeitão, essa coisa da velocidade. Não vou ter nunca aquela noção de tempo, a decisão, o domínio que ele tem. Cada um na sua. Eu troquei a volúpia de chegar rapidinho pelo prazer de estar a caminho. No amor também.
Caçar... Dar um tiro num bicho... Ele tem isso, a certeza de que o homem é o senhor do universo, tudo tá aí pra ele. Quem me dera. Quando penso naquela pelota quente de aço entrando no corpo do bicho, rasgando carne, quebrando ossos... Não, não tenho coragem.
Aí é que eu tou perdido mesmo, no capítulo da coragem. Ele faz e acontece, já vi. Mas eu? Quantas vezes já levei desaforo pra casa. Levei e levo. Se um cachorro late pra mim na rua, vou lá e mordo ele? Eu não. Mudo de calçada.
Outra coisa: ele é mais engraçado do que eu. Fala mais alto, ri mais à vontade, às vezes chama até um pouco a atenção mas... é da idade. Lembra aquela vez que ele levou um urubu e soltou na igreja no casamento do Carlinhos? E aquela vez que ele sujou de cocô de cachorro as maçanetas dos carros estacionados na porta da boate’? Lembra que sucesso? Os jornais falaram por dias naquilo. Não consigo ser engraçado assim. Não tá em mim. Por isso que eu não tenho mágoa. Ele é muito mais divertido. E mais bonito também.
Vai.
Olha, não quero dizer que o que eu vou falar agora tenha importância pra você, que possa ter influído na sua decisão, mas ele tem mais dinheiro também, você sabe. Ele tem até, sabe?, aquele ar corajoso dos ricos, aquela confiança de entrar nos lugares. Eu não. Muito cristal me intimida. Os meus lugares são uns escondidos onde o garçom é amigo, o dono me confessa segredos, o cozinheiro acena lá do quadradinho e me reserva o melhor naco. É mais caloroso, mas não compensa o brilho, de jeito nenhum.
Ele é moderno, decidido. Num restaurante não te oferece primeiro a cadeira, não observa se você tá servida, não oferece mais vinho. Combina, não é?, com um tipo de feminismo. A mulher que se sente, peça o que quiser, sirva-se, chame o garçom quando precisar. Também não procura saber se você tá satisfeita. Eu sei que é assim que se usa agora. Até no amor. Já eu sou meio antigo, ultrapassado, gosto de umas cortesias.
Também não vou dizer que ele é melhor do que eu em tudo. Isso não. Eu sei por exemplo uns poemas de cor. Li alguns livros, sei fazer papagaio de papel, posso cozinhar uns dois ou três pratos com categoria, tenho certa paciência pra ouvir, sei uma ótima massagem pra dor nas costas, mastigo de boca fechada, levo jeito com crianças, conheço umas orquídeas, tenho facilidade pra descobrir onde colocar umas carícias, minhas camisas são lindas, sei umas coisas de cinema, não bato em mulher.
E não sou rancoroso. Leva a chave para o caso de querer voltar.


(ÂNGELO, Ivan. "Vai" In: Ladrão De Sonhos e outras histórias. São Paulo: Editora Ática, 1995)

terça-feira, 27 de abril de 2010

Cora Coralina

Alguns dias são mais alegres ou mais tristes.
Hoje o dia não foi muito alegre.
Eu nunca tinha lido nada de Cora Coralina, mas hoje, por acaso, li estes versos no Facebook da Eunícia, achei lindos demais e precisei compartilhar, pois me tocaram e me alegraram.
Espero ser para outros aquilo que essas pessoas que perdi são para mim.


Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido
Se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo.
É o que dá sentido à vida
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais
Mas que seja intensa
Verdadeira, pura...
Enquanto durar.

(Cora Coralina)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Lendo

Depois de longo período sem ler literatura direito, dormindo em cima de todos os livros magníficos que eu abria, voltei a minha forma perfeita: estou lendo dois ao mesmo tempo, um para cada momento. Compaixão de Toni Morrison e Senhor dos Anéis do imortal Tolkien.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Uma leitura das chuvas...

Choveu forte no Rio de Janeiro durante a última semana. Apesar das atividades terem começado a se normalizar na quinta e na sexta após o ocorrido, para algumas pessoas a vida não volta ao normal.
Hoje, ao abrir minha página inicial, encontrei a fala de uma desabrigada que dizia para a BBC o seguinte: "tenho medo que nos esqueçam."
Como este é um blog escrito por leitores cariocas, achei que seria útil trazer uma leitura para nossa reflexão.
No meio de uma Inglaterra devastada pela Peste John Donne escreveu:


"Nenhum homem é uma ilha plena em si mesma.
Cada homem é uma parte do continente, uma parte do todo.
Se uma porção de terra é levada pelo mar,
a Europa é levada, como se um penhasco fosse,
como se a casa dos teus amigos ou a tua própria fosse.
Toda morte humana me diminui, porque sou parte da humanidade.
Então não queira saber por quem os sinos dobram:
eles dobram por ti".
(JOHN DONNE -- Devotions Upon Emergent Occasions, 1623 - Tradução por Israel Belo de Azevedo)

O livro completo está disponível online no googlebooks 
Me senti compelida a escrever, mesmo que uma semana depois. Não conheço a jovem Tayene Wullyane, que manifestou seu medo para os jornalistas. Entretanto, não a esquecerei. Os sinos que avisam das mortes muitas e do desastre profundo, também retinam por minha causa. Esperemos que a próxima tragédia seja evitada e que esta não seja esquecida. 
Para nós que perdemos pessoas amadas, a vida não volta ao normal tão rapidamente...

terça-feira, 6 de abril de 2010

Literatura Infantil

Leitores amigos cariocas ficaram ilhados hoje em suas casas, com fortes recomendações do prefeito, do governador e do resto do mundo para não sair de casa.
Apesar do dia ter se tornado uma folga, os diversos trabalhos pendentes não sumiram. No entanto, em um pequeno intervalo resolvi vir até aqui postar rapidamente, já que finalmente passei as fotos para o computador.
Eu encontrei este livro em minhas andanças no outro lado do Atlântico. Estava na promoção. Achei lindíssimo e lembrei dos leitores amigos quando comecei a ler. Especialmente da Eunícia, que sempre escreve sobre literatura infantil e que já nos apresentou a ilustradores e escritores infantis.
O livro fala sobre clássicas publicações infantis. Consiste em um pequeno resumo da obra, seu autor, sua repercussão e fotos das publicações infantis.
Ao lado temos a foto da ilustração de Walt Disney para o clássico conto de Peter Pan.
O livro fala de diversos clássicos, muitos ilustrados pela disney e inclusive, quase no final, fala do meu favorito é claro. Mary Poppins.
Como o próprio nome diz, é o livro dos livros para crianças, e é muito divertido.

domingo, 28 de março de 2010

Outra leitura de Alice

Em apenas três semana chegará aos cinemas o filme de Tim Burton com a nova versão do clássico imortal de Lewis Carroll. Antes disso porém, as prateleiras das livrarias foram entupidas com as diversas versões da obra. Incluindo uma comentada e outra belíssima ilustrada com baralhos.
Entre as obras que chegam ao mercado encontramos uma linda versão da história com as ilustrações de Helen Oxenbury.
Helen, inglesa, já ganhou diversos prêmios como ilustradora. O mais recente, Kate Greenaway Medal ,  reconheceu seu magnífico trabalho nas ilustrações das duas obras clássicas de Lewis Carroll. Vale a pena dar uma conferida na obra. Passei pela Travessa e tive oportunidade de folhear, achei divertido como as ilustrações tem de fato muita personalidade. 

sexta-feira, 26 de março de 2010

se eu ainda fosse criança...

Ontem tive a oportunidade de ir até Ipanema com meu pai. Demos um pulo na Livraria da Travessa e jantamos por lá. Antes de ir embora eu fui até a parte infantil. Encontrei uma menina chamada Manu por lá. Devia ter por volta de três ou quatro anos. Estava com a mãe vendo diversos títulos possíveis. E eu vendo outros. O que mais me chamou atenção foi um pequeno detalhe. A menina se sentia em casa, e estava com pés descalços.
Os que me conhecem saberão que foi neste detalhe que realmente me reconheci. Se eu ainda fosse criança...
=D