Ps. Como diria Eunícia em comentário antigo e Mia Couto no livro em questão, não é preciso temer...
"Cada libro, cada tomo que ves tiene alma. El alma de quien lo escribió y el alma de quienes lo leyeron y vivieron y soñaron con el (...) Los libros son espejos: sólo se ven en ellos lo que uno ya lleva dentro"(Carlos Ruiz Zafón, La sombra del viento)
sábado, 26 de setembro de 2009
Quem tem medo do Escuro?
Ps. Como diria Eunícia em comentário antigo e Mia Couto no livro em questão, não é preciso temer...
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Luana
"Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar."
=D obrigada pela sua alegria Luaninha, que sempre nos alegra tão grandemente.
Feliz Aniversário.
Bienal...
Bem eu fui. Duas vezes e me diverti em ambas.
Primeiro fui em um sábado, estaca lotada e quase impossível era percorrer aqueles corredores abarrotados de gente no Riocentro. Ziraldo esteve lá, assim como Maurício de Souza, duas figuras importantes da minha infância. Ziraldo escreveu o primeiro livro sério que li (sério?! hahahahah), melhor dizer que o primeiro livro com mais texto, lido na primeira série, hoje segundo ano. O Joelho Juvenal. Maurício tem me acompanhado desde sempre com suas revistinhas. No início eu só via as figuras, depois comecei a ler alguns balões. Por fim meu pai fez uma assinatura da 'Turma da Monica'. Então eu esperarva, esperava e esperava. Quando batiam na porta eu corria e não deixava nem as revistinhas chegarem no meu quarto, lia no silêncio com meu amigo, o sofá da sala. (=D)
Não entrei na fila dos autógrafos, queria deixar que as crianças usufruissem do que eu mesma tive quando criança. Na segunda vez fui com a Roberta e com a Isadora. Tive outras oportunidades belas, como por exemplo, mostrar o livro de onde tirei o poema 'Isadora'. Além disso, a Bienal estava vazia, então pude comprar outras coisas que não tinha visto. Por exemplo, um livro infantil escrito por Mia Couto.
Como estava com uma leitora mirin, entrei na famosa floresta das palavras. Foi excelente.
Na Bienal eu encontrei novos e baratos livros do Monteiro Lobato. Comprei vários. Quando era criança eu queria ter a coleção toda. Meus sobrinhos e possíveis filhos a terão. Por enquanto tento contar as estórias para minha quase prima Maria Eduarda que com seus seis anos corre, pula pela casa e brinca nos meus ombros. Obviamente fracasso, mas quando ela quiser, a coleção estará aqui.
Ainda tem dois dias de Bienal, vá!
E domingo, Miguel Sousa Tavares estará lá!
Fotos:
Esse era para ser um post com fotos. Tirei foto da Bienal, do Maurício, da floresta.
Mas um ninja conseguiu apagar todas as fotos da máquina quando eu emprestei para que ele tirasse uma foto. =D (Socorro!!!)
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Poesia?
- Quero lhe pedir um favor: faça um poema agora mesmo. Tenho certeza de que não será banal. Se você quiser Menestrel, fale seu poema.
- Meu poema é em duas linhas: você escreve uma palavra embaixo e outra em cima porque é um verso.
É Assim:
(Clarice Lispector entrevistando Vinícius de Moraes. LISPECTOR, Clarice. Vinícius de Moraes in: de corpo inteiro.)
Eu nunca escrevi diários, agenda ou caderninhos. Nesse aspecto sempre fui muito diferente das minhas poucas amigas adolescentes ou pré-adolescentes. Na verdade eu devo admitir que sempre tive dificuldade de confiar, especialmente em mulheres. Minhas grandes amizades de adolescência, pré-adolescência e infância foram, durante algum tempo, apenas dois meninos que disputavam minha atenção e o posto de ‘melhor amigo’, e uma menina com a qual brincava de barbie, lego e casinha é claro. Tomei gosto pela escrita de outra forma. Eu falo sobre o tempo, faço piada, brinco com os outros, mas falar sobre o que sinto é uma dificuldade que carrego desde que consigo lembrar. Então eu descobri a escrita. Excelente terapia que alivia o stress enquanto eu escrevo bobagens absurdas que nunca serão lidas, e outras que serão postadas em um blog não visitado. Minha (quase única) grande amizade feminina da adolescência lia meus textos exaustivamente e os corrigia atentamente. Isso pode ser uma enorme tortura quando a autora não sabe posicionar vírgulas, usar “porque” ou crase. Na época eu odiava português e tinha feito questão de esquecer tudo que minhas professoras malucas tinham tentando colocar na minha cabeça. Hoje a amiga faz letras e eu aprendi muita coisa em nossa longa trajetória de amizade. Volta e meia eu envio um texto para ser avaliado. Mesmo que hoje ela encontre apenas alguns pequenos e poucos erros em minha escrita, sinto falta sempre dos comentários dela.
Quando eu aprendi a amar a língua portuguesa no meu primeiro ano e superei o trauma ‘Machado de Assis’ no terceiro, juntei coragem e mostrei alguns dos meus escritos para a professora. Um deles foi publicado entre as melhores redações do colégio e eu tive direito até a uma tarde de autógrafos. Entretanto, sou incapaz de escrever sonetos. É uma doença crônica gravíssima. Também por isso, nunca consegui entender o que era aquilo que eu escrevia.
- Eu não sei o que eu escrevo professora, eu só escrevo – Eu disse isso para minha professora e ela sorriu, respondeu com naturalidade – Isso é prosa poética, é o que a Clarice Lispector faz. Leia algo dela.
Imediatamente devorei ‘A Hora da estrela’, depois li outros e ainda estou perseguindo essa mulher graças ao sorriso da minha querida professora. Enquanto tantos ficavam desesperados quando encontravam Clarice no vestibular, eu ficava alegre. Era como reencontrar uma grande amiga. Sem etiquetas, esperas ou cobranças, tinha comigo apenas a felicidade de passar com ela alguns momentos. No meio de 2009 e sua bagunça eu descobri Mia Couto. Prosa poética ou poesia em prosa? - perguntaram para ele. Não me importa, o que me interessa é ser inundada por palavras cheias de beleza, sentidos e sorrisos. Importa-me sorrir enquanto leio, mesmo que seja um riso em meio ao triste ou trágico, gosto de sentir.
Encontrar Mia Couto e sua escrita foi um belo retorno a uma verdade tão gostosa que me foi ensinada por Clarice: Poesia é sentir e escrever vivências, e assim como a existência, não tem grandes protocolos. Esbarro então com a palavra grega poiesis, onde arte é criar e todo fruto das mãos e da mente humana pode ser uma poesia. E sorrio com o Mia Couto em uma das mãos, Clarice na outra e as palavras borbulhando na tela do computador. Poesia é uma simples forma de ler e sentir a vida.
domingo, 30 de agosto de 2009
Janelas...
Através de Mia Couto eu encontrei novos horizontes. Seu livro me apresentou duas novas autoras. Aos poucos compartilho com vocês.
Hoje postarei um poema, que introduz um dos capítulos do livro 'antes de nascer o mundo'.
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
Sophia é poeta e contista portuguesa. Nasceu em 1919 e é considerada um dos maiores nomes da poesia portuguesa contemporânea. Em 1999 recebeu o prêmio Camões, um dos mais importantes para autores de língua portuguesa. O prêmio foi instituido pelo governo brasileiro em conjunto com o de Portugal. Ele é atribuido a autores que com o conjunto de sua obra tenham contribuido para o enriquecimento da língua portuguesa.
Em 2004 perdemos Sophia, mas, através de seus belos escritos, ela segue conosco, viva na memória da nossa língua.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Memorável...
Descobri os livros muito jovem e ainda lembro do fascínio que senti ao perceber que podia ler sozinha as letras impressas no papel. Quando adolecente eu conheci o livro que seria 'livro da minha vida' por toda minha adolescência. Riam o quanto quiserem, o livro é a obra imortal de Gaston Leroux, "O fantasma da Ópera". Ele foi o livro extra da sétima série e eu era apaixonada por ele. Conhecia os diálogos, os personagens e devo dizer que o li por completo cinco vezes. Muito tempo depois um outro livro chegou. Carlos Ruiz Zafón e seu romance sobre um menino e um cemitério de livros que me levou a Barcelona e eu ainda posso sentir o livro pulsando dentro de mim. Recentemente eu conheci Mia Couto e a paixão profunda me fez quebrar uma promessa, prometi que leria Torga antes de ler outro livro do Mia Couto, mas eu não resisti.
Indo para ANPUH deparei-me com o novo livro de Mia Couto no aeroporto. Eu ainda estava terminando o primeiro e por isso nem pensei em comprar. Em Fortaleza, depois que terminei de ler "um rio chamado tempo, uma casa chamada terra", eu me arrependi de não ter comprado.
Foi a primeira coisa que fiz quando cheguei no Rio. hoje escrevo após terminar a bela leitura de "Antes de Nascer o Mundo".
Então por fim eu permito que esse livro se eleve para estar entre as minhas outras obras favoritas, mas dou a ele o lugar de honra por estar acima de qualquer outro livro que eu já tenha lido até agora. Tanto eu quanto ele sabemos que esse lugar de honra pode ser passageiro, mas nós nos olhamos como velhos amigos que sabem que certos amores não morrem nunca. E como diria o próprio Mia Couto através da portuguesa Marta em seu livro 'Antes de Nascer o Mundo', "Nunca faças nada para sempre, exepto amar".
Eu gostaria de fazer um enorme post sobre o livro e sobre como é maravilhoso revisitar esse mundo moçambicano de Mia Couto, mas já não tenho palavras. Por vezes é melhor afinar silêncios.
A obra e seus cativantes personagens me levaram a um mundo de esquecimento, memória, tempo e dor. Estou ainda deixando a história se ajeitar dentro de mim. Vejo o tempo com outros olhos e com outros tempos.
Eu poderia dizer que recomendo que você leia, mas isso é muito pouco. Eu desejo então que você leia e sinta parte do que eu senti e se assim for possível, que sorria como eu sorri. E ao final, que olhe a vida, a memória, o tempo e a História com outros olhos. Olhos de quem pode ver o antes, o depois e o próprio presente do nascer do mundo em uma vida.

